segunda-feira, setembro 05, 2005

Apontamento feito crítica

Certo dia na baixa de Lisboa, entrei numa daquelas boutiques coquettes e desculpando-me com o casamento do Pedro dei-me ao luxo de escolher três belíssimas peças que levei até aos provadores e experimentei orgulhosa.
Talvez os meus vinte e poucos anos, os cabelos loiros e o metro e setenta de altura ajudem á boa apresentação, mas a verdade é que a minha imagem reflectida no espelho era simplesmente perfeita; facto que até a adorável empregada da loja realçou e exaltou ao ponto de chamar a atenção das restantes clientes nos provadores, as quais me olharam de maneira odiosa e impiedosa.
Momentos mais tarde quando cheguei á rua apercebi-me de que com a pressa tinha deixado o dossier na caixa e por ter voltado ao estabelecimento vi uma das pindéricas de olhar desdenhoso a comprar um vestido igualzinho ao meu. Juro que naquele momento tive vontade de lhe esmurrar os óculos de sol com o telemóvel, mas um encolher de ombros por parte da empregada que me atendera e o seu sorriso fizeram-me acalmar e sair com a maior serenidade possível.
“O povo português é um misto execrável de coscuvilheiros e invejosos, mas por a maioria da população ser profundamente mesquinha eu não tenho de descer ao seu nível!” pensei e lá fui, com o saco pendurado no braço e as unhas apertadas na carne.

Louise Dahl-Wolfe, Mary Jane Russell, 1950