terça-feira, agosto 02, 2005

Um (quase) conto de encantar

O cabelo loiro escorrido assentava-lhe sobre os ombros da camisola de algodão branco, um chupa-chupa rosado rodava inquieto sob os seus lábios humedecidos, a atenção dividia-se entre o murmurar inaudível da sua amiga no meio daquele autocarro excessivamente apinhado e o olhos claros que a fitavam na porta escura do prédio em frente ao semáforo onde o transito parara. Ele, o senhor do olhar interessado, era alto e alvo, de cabelos alourados e sorriso desaparecido, envergava um fato banalmente azul-escuro e uma camisa perfeitamente engomada…
“Estás a olhar para onde?” perguntou a amiga com sincera curiosidade
“Para o garoto giro!” disse-lhe a miúda de cabelos loiros, enquanto aproveitava a pausa para atirar uma risada espontânea.
“É giríssimo! Cá para mim é advogado!” retorquiu a amiga enquanto se encostava novamente no banco fétido e desconfortável do autocarro!
Nesse momento o autocarro avançou uns metros, a frontaria do edifício ficou escondida e a pobre miúda loira murmurou: “Oh! Estava a gostar deste jogo! Ele é extremamente atraente! Giríssimo…e…”
“Ele também parece ter gostado de ti” disse a amiga enquanto esboçava um sorriso e apontava para a rua.
A miúda voltou a olhar o bloco de escritórios modernos…e identificou-o, no patamar abaixo da porta. Descera, claramente, um ou dois degraus para ficar naquele raio de visão. Ela estava encantada com a afinidade…Mas antes que tivesse coragem ou falta de senso suficiente para abandonar aquele autocarro, este retomou a marcha com a abertura do círculo verde…

Escusado será dizer que ela voltou lá. Três dias depois estava sentada sobre o banco de repouso ali ao lado do bloco, batendo as solas dos ténis sobre o pavimento e espiando a porta com ânsia curiosa. Ele não saiu. Ela rabiscou uma nota num velho bilhete de metro, rezava assim: “La petit fantaisie...”



Takai

1 Comments:

Blogger simao said...

como será no dia em que sairmos do autocarro?

12:08 da manhã  

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