domingo, agosto 07, 2005

A Instrução dos Amantes

A prosa poética de Inês Pedrosa transporta-nos á beleza rubra de poemas apaixonados de Florbela ou á serenidade das letras de Sophia. Não sei se lhes vai agitar os panos da tumba para buscar essa inspiração que a mim me entrega, mas tenho a certeza de que lhes conhece e admira a obra. Talvez seja porque mistura sentimentos calados com gritos de atenção e uivos de necessidade…Talvez seja porque transmite melhor que qualquer escritora moderna o antagonismo e o buraco cada vez mais evidente no campo que divide o materialismo pós moderno e amor arcaico por alguém…Não lhe censuro a preocupação, muito menos a obsessão! Sei que dói e corrói, assistir assim calada e ainda mais quieta que ela, sem forma de expressão, á opressão dos formosos sentimentos de outrora. E porquê? Porque o egoísmo está latente na fronte de cada novo par ou debaixo dos lençóis de mais uma cama…
A Instrução dos Amantes arrebatou-me pela simplicidade irónica, quase depurada de floreados, num primeiro parágrafo introdutório que me levou a arrecadar o livro debaixo do braço, quando o peguei junto á estante de literatura portuguesa. Queria leva-lo para casa, deita-lo ao meu lado na cama e explorar-lhe o âmago como quem devora essa mesma instrução que serve como pregão a quem lhe varre o titulo com os olhos. Queria sentir-lhe a sabedoria, o truque, a dica, a frase fácil que instruísse também esta amante…
Mas o plano saiu-me logrado, á medida que me afundava na cálida trama ia apreendendo a afinidade com os momentos de um passado ou presente que não ouso assumir, bem como a semelhança de mim com aquela Ana Carolina, garota velha que “Ouvia Jazz. e “Passava horas a explicar que todos vivemos no tremendo equivoco de um dialogo de surdos, porque ninguém quer ouvir senão o eco do seus próprios solos”.
Inês tem razão: “Á geografia cabe hoje o papel tirano que dantes cabia ás famílias. Pelo menos consola pensar que há um tirano qualquer, uma força maior a moldar a maldade humana.”. Uma força que não deixe morrer esses amores épicos e tão trágicos quanto irreais…


Tamara Lempicka