segunda-feira, julho 25, 2005

Lolita de Vladimir Nabokov

A minha relação com a maioria dos livros que leio é distante e fria. Após a sua leitura são arrumados na prateleira cimeira da estante e aí permanecem (talvez anos) até que eu lhes volte a desfolhar as páginas usadas, umas vezes de maneira rápida e ofensiva, outras vezes de forma carinhosa e mais morosa…
Nunca me lembraria de criticar esses livros, não porque tenha vergonha da literatura que me distrai (muitas vezes light), mas pelo ténue espírito crítico que temo possuir, uma vez que, as parcas palavras que sou capaz de exprimir perante um livro, um filme, ou um artigo que acabo de ler, parecem-me sempre vãs e insuficientes para justificar e (realmente) provar o meu parecer.
Hoje arrisco uma pequena e arrojada critica a um livro fabuloso: Lolita de Vladimir Nabokov conquistou-me alguns momentos mortos nestas ferias e acabou por os atafulhar de vitalidade e bonitas promessas.

Compacto e cheio, mostra-nos deliberadamente uma história narrada na primeira pessoa e um divagar constante, entre a descrição belíssima da paisagem americana nos anos 40 e os pensamentos conspurcados (e ao mesmo tempo perdoáveis) de Humbert Humbert para com a sua belíssima e inocentemente atraente Dolores.
Durante a trama é fácil levar a mão aos lábios numa involuntária surpresa chocada ou até reprimir um alojo relativo ás pequenas torturas que sentimos no corpo da pequena Lolita. Mas Humbert, dotado de uma cultura europeia cuidada e um toque de delicioso francês aqui e ali, acaba por conseguir manter um certo nível e uma ausência completa de reles pornografia nos seus escritos; o que é essencial para a leitura do romance, de outra forma (e apesar de saber que é uma obra ficcionada) não seria capaz de desfolhar a obra até á “Nota final do autor”.
Existem certos pontos de beleza e encantamento puros, como o relato apaixonado e totalmente parcial do “pai” enquanto enumera os atributos e a candura de Lolita disputando uma partida de ténis. Ou voltando mais atrás, o instante em que Humbert vê pela primeira vez a garota no jardim da casa onde se hospedará e se encanta imediatamente pelo seu espírito e formas.
Mas porque não poderiam deixar de existir maculas numa historia com este perfil, também existem inúmeros momentos em que o cavalheirismo e o melancólico charme do hipotético autor são quebrados pelos seus comportamentos ofensivos e abusivos na pobre criança, criança esta que enlouquece em silencio solitário. Existe particularmente um capítulo, já no final (cuidadoso Vladimir) em que estes apontamentos de terror são mais explicitamente expostos…e sim, esse capítulo enoja-me profundamente.

Mas no seu todo, a obra é genial. Repleta de figuras de estilo fáceis cria uma aura de prosa poética que muitas vezes disfarça o verdadeiro âmago da sua criação…e Vladimir Nabokov é realmente um doce de ser lido…talvez um dia destes arrisque ler a obra no inglês original, só assim entenderei o esforço e a valentia do autor ao desafiar o desencanto da língua inglesa com tão formosas construções...

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