quinta-feira, julho 14, 2005

Espelho meu

O ccb ergueu-se na minha frente com as suas toneladas de betão e prometeu-me um belo refúgio ao sol abrasivo, que me queimara a pele e o discernimento durante a corajosa caminhada ribeirinha.
Comprei uma agua fresquinha na belíssima loja de chocolates que enfeita o canto direito do hall, entrei na Bertrand sem prestar atenção aos títulos nos livros coloridos e avancei confiante até á casa de banho…onde puxei o tampo da sanita para baixo e onde sentei o rabiosque, naquele que era o meu primeiro momento de paz desde as sete de manha…e já eram quatro da tarde! “Mereço isto, mereço mesmo! Só me meto em confusões!”.
Ao fim de dez minutos (ou mais) recuperei os sentidos e resolvi sair dali, antes que alguém me expulsasse, ou pior, antes que o Mike entrasse por ali adentro para me ir buscar. Mais um acto violento para o corpo não! A caminhada desde o Chiado até Belém já foi pesada o suficiente.

Agora falemos do que interessa, porque de introdução já chega.
A exposição erguia-se em seis ou sete divisões, cada divisão representava um artista ou um conjunto de artistas, cada apresentação diferia na qualidade de imagem, na data em que fora tirada e até na impressão fotográfica; toda uma panóplia de imagens e sentidos á volta do tema genérico: Portugal e a visão dos vários fotógrafos da Magnum sobre este.
Despertou-me a atenção toda a obra e toda a composição expositiva das imagens de Miguel Rio Branco. As cores, o pormenor, a textura e a sensação que me deixou na pele são alguns substantivos que vou associar ao momento mais artístico e mais belo da mostra. Perfeito!
Susan Meiselas pareceu-me ser o grande destaque da exposição, mas contrariamente ao que esperei, não morri de amores pelo seu trabalho na cova da moura…Reconheço-lhe a coragem, o génio e até a boa fotografia, mas as imagens demasiado cruas, desprovidas de imaginação, inovação ou arte deixaram-me deveras desiludida. Alem disso já tinha lido uma reportagem sobre o projecto algures nas páginas da Actual, e na altura também não tinha ficado muito convencida.
Prefiro referir uma beldade que encontrei no último paredão da sala, uma imagem captada por Henri Cartier-Bresson á confissão de uma mulher, toda ela em vestes negras, sobre um pequeno confessionário, junto a um padre gordo e atento! Uma belíssima composição, um belíssimo momento e uma perfeição tal que por momentos vi-me conspirar contra o mítico fotógrafo e julgar aquela fotografia como um momento estudado e previstos, com modelos pagos e cenário-igreja alugado. Louco mas divertido!



Miguel Rio Branco