sábado, julho 30, 2005

“Não curto Vibe!” “ Shame on you!”

A Figueira da Foz ressuscita e revitaliza as minhas noites de verão. Com um programa que inclui Chus & Ceballos, Carl Cox, Silicone Soul, To Zé Diogo e outros…vejo-me obrigada a ponderar duas vezes sempre que decido sair. Ontem levei com uma dose pesada de house. O DJ Vibe entrou bem no ritmo do tipo loiro que costuma passar som no Vinyl B, mas infelizmente não conseguiu agarrar-me o corpo…Uma hora depois de começado o set, com a discoteca a rebentar pelas costuras e o fumo a formar uma pequena nuvem de toxinas, fui obrigada a pedir ao Mike para sair dali imediatamente…A cabeça latejava insistentemente, nos olhos formavam-se pequenas lágrimas espontâneas e a cada passo sentia-me desfalecer: “Vamos para casa por favor!”

sexta-feira, julho 29, 2005

Tarde de sexta-feira

“Nunca tinhas vindo ao CAV?”, “Não!”, “Então quem é que veio cá comigo?..Ah já sei, foi a Ana…e o Cândido também! Já nem me lembrava…”
Eu nunca tinha pisado o Centro de Artes Visuais, talvez por inércia, talvez por falta de oportunidade…o certo é que aquele espaço, anteriormente usado como colégio das artes coimbrãs, actualmente transformado num centro de exposições temporárias, permanecia totalmente desconhecido ao meu roteiro cultural.
Então, foi com imensa curiosidade que comecei por passar os olhos sobre os projectos arquitectónicos expostos ao longo de uma sala quieta e calada, onde apenas ouvia o som pegajoso dos meus ténis a roçarem o chão e a brisa despertada pelo leque improvisado da Amanda. Talvez aquele sítio não fosse um espaço muito frequentado, mas o interesse encerrado em cada uma das peças apresentadas era sem duvida algo a reter e interiorizar.
Devo exaltar a belíssima fotografia de Daniel Malhão e Edgar Martins, bem como a obra recuperadora de João Mendes Ribeiro, com especial carinho para com a pequena casa de chá construída sobre as ruínas interiores do castelo de Montemor-o-Velho (que é tanto do meu agrado nestas noites de verão).


Centro de Artes Visuais

Amor presente

Ele permanecia deitado sobre o amontoado de lençóis, eu sentara-me sobre a sua cintura olhando-lhe os olhos e rindo acerca de qualquer coisa idiota que ele dissera…Entretanto o telemóvel vibrou sobre a mesa-de-cabeceira, “é o teu!” disse-me, “maldito!”, dizendo isto atravessei a cama de gatas e peguei no bichinho enquanto voltei para a minha posição inicial…
Abri a tampa sem reparar em quem ligava, disse “sim?” e desfaleci imediatamente, quando senti a voz doce e arrastada do meu amor através da linha. “Onde estás?” perguntou-me ele, “na cama” murmurei enquanto rodava o indicador sobre a aureola do umbigo do outro, “a dormir?”, “mais ou menos…a preguiçar”, “tenho saudades tuas! Vem falar comigo no msn”, “não posso! Não quero”, “ah ta bem…estás com quem?”, “com ninguém” e desliguei o telemóvel.
Odiei-me pelo sentimento de divisão que senti descer-me á pele, odiei-o por sentir aquele momento, como quem adivinha e odiei sobretudo a nostalgia que não consegui controlar no momento em que desejei sair dali e refugiar-me nos braços dele, do meu amor!

quinta-feira, julho 28, 2005

Um chá no teatro

Actor alto, alvo, de porte esguio e desajeitado…cruzava a perna com dificuldade debaixo de uma mesa demasiado baixa e puxava o fumo com a insistência e a pacatez de um verdadeiro apreciador de tabaco.
Acabara de o conhecer através de uma amiga comum, amiga essa que também se encontrava na mesa, mas já lhe denotara dois ou três defeitos odiosos, como aquele de ironizar ou ridicularizar alguém de quem não gostava, ou o outro de desembrulhar sem pedido algum sobre a imensa historia da sua vida. Talvez por isso não lhe tenha prestado muita atenção, diverti-me com a conversa que tivemos, gostei da sua cultura, da sua opinião, do seu humor…mas sinceramente, estava longe dos meus planos vir a encontra-lo todos os dias. Por isso, quando cheguei a casa e recebi a sua chamada, fiquei totalmente perplexa, não queria acreditar que ele me estava a ligar uma hora depois de nos termos despedido…muito menos acreditar nas suas palavras quando murmurou estar “apanhadinho” por mim!
Incomodada? Bastante! Lisonjeada? Não tanto como seria de esperar…afinal, 17 anos a mais em maturidade, cultura soberba, espírito animado, conhecimentos vastos e amigos fabulosos não chegaram para me aliciar… "acontece"

quarta-feira, julho 27, 2005

O Nome Que No Peito Escrito Tinhas

Exposição inserida nas comemorações dos 650 anos da morte de Inês de Castro, reúne uma pequena mostra contemporânea de alguns desconhecidos artistas portugueses e exalta o tema amor, personificado nas personagens trágicas Inês e Pedro, como ponto de elevação artística.
Em destaque, apresento o enorme coração luso de formas vienenses que se encontrava suspenso do tecto alvo e frágil, através de um linha quase transparente que unifica a obra em ferro retorcido e garfos de plástico rubro sobre e a entrada da divisão. A sua autora e detentora é Joana Vasconcelos, umas das jovens e promissoras artistas do futuro no meio fechado e ainda restrito da arte nacional. A comprovar o seu talento, temos a genialidade da peça atrás descrita, o anterior trabalho apresentado nos jardins da Quinta das Lágrimas, bem como a participação na presente edição da bienal de Viena de Áustria com algumas obras recentes.

A terminar a vista, tivemos direito a uma pequena incursão independente sobre o âmago do centro de exibições, a fim de vislumbra de perto o pavilhão desenhado e projectado por Siza Vieira e Souto Mora como peça de apresentação de Portugal na anterior exposição mundial de Hannover. Reconheço a fluidez e composição de formas como bem conseguida, destaco uma ou duas pinturas coloridas que tive o prazer de observar nos recantos do segundo piso, mas descuro o design seco e demasiado direito do mobiliário interior…demasiado frágil e obsoleto. Portanto digo: “este pavilhão, apesar da belíssima entrada e das críticas positivas que ouvi na boca do Zé (estudante de arquitectura) não me cativou a simpatia”, Amanda comentou: “és tão rococo!” “e tu por acaso sabes o que é rococo, amor?” ao que ela se calou…


Coração Independente de Joana Vasconcelos

terça-feira, julho 26, 2005

Madagáscar vs Sonho de uma noite de S. João

A Amanda arrastou-me até ao cinema, tinha ganho bilhetes para assistir ao “Sonho de uma noite de S. João” e contava com a minha companhia para esvaziar um gigantesco pacote de pipocas doces. Sentámo-nos ao fundo da sala, encavalitadas sobre dois bancos confortáveis, ladeadas de miúdos e pais de várias idades, colocamos a conversa em standby e preparamo-nos para assistir a um bom filme de animação, um dos primeiros filmes de animação portugueses (ou de colaboração portuguesa). Mas no final da fita, o meu olhar ausente e a cara de desalento da Amanda revelavam uma total desilusão…
Para não perdermos a tarde, resolvemos entrar, praticamente de seguida, numa segunda sala, desta vez sem bilhetes pagos, desta vez para assistir ao fantástico "Madagáscar".
Escusado será dizer que este não desiludiu nenhuma das duas. Com uma animação perfeita, personagens fabulosas e uma trama delirante, Madagáscar acabou por nos fazer gargalhar durante todo o filme: com a voz, perfeitamente enquadrada, do Bruno Nogueira sob uma girafa hipocondríaca; com os (meus preferidos) insanos pinguins, com o leão esfomeado e a cena de American Beauty, com a voz arrogante do Ricardo Araújo Pereira enquanto personificava um conselheiro enfadado e sagaz de um rei perfeitamente idiota e deslumbrado…

Apoiar a produção nacional não deveria ser uma obrigação, deveria ser sim uma opção de qualidade! Infelizmente aguardamos por essa evolução…

segunda-feira, julho 25, 2005

Lolita de Vladimir Nabokov

A minha relação com a maioria dos livros que leio é distante e fria. Após a sua leitura são arrumados na prateleira cimeira da estante e aí permanecem (talvez anos) até que eu lhes volte a desfolhar as páginas usadas, umas vezes de maneira rápida e ofensiva, outras vezes de forma carinhosa e mais morosa…
Nunca me lembraria de criticar esses livros, não porque tenha vergonha da literatura que me distrai (muitas vezes light), mas pelo ténue espírito crítico que temo possuir, uma vez que, as parcas palavras que sou capaz de exprimir perante um livro, um filme, ou um artigo que acabo de ler, parecem-me sempre vãs e insuficientes para justificar e (realmente) provar o meu parecer.
Hoje arrisco uma pequena e arrojada critica a um livro fabuloso: Lolita de Vladimir Nabokov conquistou-me alguns momentos mortos nestas ferias e acabou por os atafulhar de vitalidade e bonitas promessas.

Compacto e cheio, mostra-nos deliberadamente uma história narrada na primeira pessoa e um divagar constante, entre a descrição belíssima da paisagem americana nos anos 40 e os pensamentos conspurcados (e ao mesmo tempo perdoáveis) de Humbert Humbert para com a sua belíssima e inocentemente atraente Dolores.
Durante a trama é fácil levar a mão aos lábios numa involuntária surpresa chocada ou até reprimir um alojo relativo ás pequenas torturas que sentimos no corpo da pequena Lolita. Mas Humbert, dotado de uma cultura europeia cuidada e um toque de delicioso francês aqui e ali, acaba por conseguir manter um certo nível e uma ausência completa de reles pornografia nos seus escritos; o que é essencial para a leitura do romance, de outra forma (e apesar de saber que é uma obra ficcionada) não seria capaz de desfolhar a obra até á “Nota final do autor”.
Existem certos pontos de beleza e encantamento puros, como o relato apaixonado e totalmente parcial do “pai” enquanto enumera os atributos e a candura de Lolita disputando uma partida de ténis. Ou voltando mais atrás, o instante em que Humbert vê pela primeira vez a garota no jardim da casa onde se hospedará e se encanta imediatamente pelo seu espírito e formas.
Mas porque não poderiam deixar de existir maculas numa historia com este perfil, também existem inúmeros momentos em que o cavalheirismo e o melancólico charme do hipotético autor são quebrados pelos seus comportamentos ofensivos e abusivos na pobre criança, criança esta que enlouquece em silencio solitário. Existe particularmente um capítulo, já no final (cuidadoso Vladimir) em que estes apontamentos de terror são mais explicitamente expostos…e sim, esse capítulo enoja-me profundamente.

Mas no seu todo, a obra é genial. Repleta de figuras de estilo fáceis cria uma aura de prosa poética que muitas vezes disfarça o verdadeiro âmago da sua criação…e Vladimir Nabokov é realmente um doce de ser lido…talvez um dia destes arrisque ler a obra no inglês original, só assim entenderei o esforço e a valentia do autor ao desafiar o desencanto da língua inglesa com tão formosas construções...

Amazon.com

domingo, julho 24, 2005

Diário matinal

Adormeci, como morta prostrada, sobre os lençóis enrodilhados e os vários cadernos de jornais amachucados debaixo do corpo. Acordei, como zombie andrógino, tacteando a cama desfeita e procurando em vão os óculos que haviam caído sobre o tapete lateral: “sou mesmo uma idiota, podia tê-los partido” pensei.
Sem mais monólogos interiores matinais lá e dirigi até á casa de banho e por lá fiquei uns bons minutos, a lavar a cara e a inspeccionar os malditos pelos que já crescem fora da linha das sobrancelhas: “ah! Odeio-vos!”.
No caminho de regresso á cama cruzei-me com a mãe e pedi-lhe desculpa por não ter acordado a horas de ir á praia, ela encolheu os braços disse que também não lhe apetecia sair com este tempo húmido e frio, abençoou “a bendita hora em que se circunscreveram os incêndios” e lá foi dar uma voltinha até á varanda.
Eu voltei a fechar-me no quarto…até agora. São duas da tarde e não dá nadinha que se aguente nesta irrisória tv, portanto cá me vou ficando, não com os jornais (esses deixo-os para a noitinha), mas com a Lolita, que conto acabar ainda hoje (e já só faltam 76 paginas) para devolver á Amanda amanha.
Falar em Amanda, ainda tenho que lhe gravar umas fotos na pen…e se sobrar espaço, um best of dos The Smiths e uma preciosidade da Regina Spektor: Soviet Kitsch.

sexta-feira, julho 22, 2005

Jogar? Só hoje!

Nunca joguei na vida! Ou pelo menos nunca tinha jogado…até hoje!

Entrei na casa da sorte ainda não eram dez da manha. Por essa hora já se notava um movimento nervoso e constante por parte de várias pessoas, na sua maioria idosas, que pegavam em molhos de folhinhas de apostas e várias notas azuis para registar a sorte no balcão, onde rapazes jovens e frenéticos, tentavam aviar toda a gente o mais rápido possível.
Quando chegou a minha vez, inclinei-me sobre o balcão, apresentei o meu papel recheado de cruzinhas pretas e esperei que o moço do simpático me pedisse um nome, um cartão, qualquer coisa que “registasse” seguramente aquela folha como sendo minha. Mas em vez disso, nada, o referido moço limitou-se a estender-me um papel… “Olhe desculpa, é a primeira vez que eu faço isto, por acaso não preciso de deixar o nome, a morada?” “Não!” “Então se eu ficar milionária só tenho de lhe dar este papelito com este código de barras e…o senhor dá-me não sei quantos milhões de euros para os braços?” “Sim” e com sorrisos nos despedimos…

terça-feira, julho 19, 2005

Penso que foi na sexta-feira passada…Sim, deve ter sido.

Acomodei-me numa fétida e transpirada cadeira de biblioteca, abri o meu independente sobre a “tábua redonda” e iniciei uma pequena leitura.
Já não visitava a Biblioteca Municipal desde uma passada e frenética época de pesquisas, por isso, entrar ali, durante a tarde tórrida de Julho e observar o pequeno bulício de uma multidão demasiado compenetrada nos seus próprios afazeres para reparar numa miúda afogueada e ligeiramente apressada que irrompera pela sala dentro, foi sem duvida uma calmaria para o meu espírito desvairado.
No entanto esta paz que se me abateu durante uns bons minutos foi espalhafatosamente quebrada quando constatei uma pequena novidade no canto direito de uma das folhas do suplemento do jornal. Então não é que a Filipa Jardim, também conhecida como a miúda do extintor, agora tem uma belíssima E BEGE crónica num jornal nacional? Desculpem! Certamente estarei a exagerar, talvez não seja uma coluna, talvez seja apenas um rabisco da mesma. Mas a verdade é que a rapariguinha ataca forte e feio a vida social portuguesa e ate internacional, ao ponto de referir, entre outras trivialidades, a filmagem do Código daVinci, a peça da “querida” Sofia Alves e ate as ameaças que esta ultima tem vindo a receber por um louco anónimo.
Meu Deus! Tanta informação deixou-me estonteada! Tão estonteada que me benzi três vezes e sai imediatamente do canto…penso que foi pela repentina má disposição, constatada até pelo septuagenário na minha frente: “a menina está bem?” “eu? ah não, sabe…estes ares artificiais fazem-me sempre muito mal”…
E ficasse ele a pensar que eu me referia ao ar condicionado ou ao verdadeiro artificial e fútil social, fui embora dali o mais depressa possível!


Shiver

quinta-feira, julho 14, 2005

Espelho meu

O ccb ergueu-se na minha frente com as suas toneladas de betão e prometeu-me um belo refúgio ao sol abrasivo, que me queimara a pele e o discernimento durante a corajosa caminhada ribeirinha.
Comprei uma agua fresquinha na belíssima loja de chocolates que enfeita o canto direito do hall, entrei na Bertrand sem prestar atenção aos títulos nos livros coloridos e avancei confiante até á casa de banho…onde puxei o tampo da sanita para baixo e onde sentei o rabiosque, naquele que era o meu primeiro momento de paz desde as sete de manha…e já eram quatro da tarde! “Mereço isto, mereço mesmo! Só me meto em confusões!”.
Ao fim de dez minutos (ou mais) recuperei os sentidos e resolvi sair dali, antes que alguém me expulsasse, ou pior, antes que o Mike entrasse por ali adentro para me ir buscar. Mais um acto violento para o corpo não! A caminhada desde o Chiado até Belém já foi pesada o suficiente.

Agora falemos do que interessa, porque de introdução já chega.
A exposição erguia-se em seis ou sete divisões, cada divisão representava um artista ou um conjunto de artistas, cada apresentação diferia na qualidade de imagem, na data em que fora tirada e até na impressão fotográfica; toda uma panóplia de imagens e sentidos á volta do tema genérico: Portugal e a visão dos vários fotógrafos da Magnum sobre este.
Despertou-me a atenção toda a obra e toda a composição expositiva das imagens de Miguel Rio Branco. As cores, o pormenor, a textura e a sensação que me deixou na pele são alguns substantivos que vou associar ao momento mais artístico e mais belo da mostra. Perfeito!
Susan Meiselas pareceu-me ser o grande destaque da exposição, mas contrariamente ao que esperei, não morri de amores pelo seu trabalho na cova da moura…Reconheço-lhe a coragem, o génio e até a boa fotografia, mas as imagens demasiado cruas, desprovidas de imaginação, inovação ou arte deixaram-me deveras desiludida. Alem disso já tinha lido uma reportagem sobre o projecto algures nas páginas da Actual, e na altura também não tinha ficado muito convencida.
Prefiro referir uma beldade que encontrei no último paredão da sala, uma imagem captada por Henri Cartier-Bresson á confissão de uma mulher, toda ela em vestes negras, sobre um pequeno confessionário, junto a um padre gordo e atento! Uma belíssima composição, um belíssimo momento e uma perfeição tal que por momentos vi-me conspirar contra o mítico fotógrafo e julgar aquela fotografia como um momento estudado e previstos, com modelos pagos e cenário-igreja alugado. Louco mas divertido!



Miguel Rio Branco

terça-feira, julho 12, 2005

Chemical Brother na fedorenta Doca Pescas

Espremida sobre o ar quente da multidão e dos corpos conspurcados daqueles que me envolveram, estiquei um braço num buraquinho á minha frente e tentei desesperadamente abrir uma pequena fissura no emaranhado de confusão em meu redor.
“Isto está mau” pensei, mas antes que pudesse ficar bom…um som estrondoso rasgou o burburinho da multidão e foi dado inicio ao concerto tão esperado: Chemical Brother na fedorenta Doca Pescas!
Imediatamente as gentes gritaram, imediatamente alguns pularam e sinceramente, ate eu me senti deveras contagiada pelo som pouco erudito e bastante leve daquele fabuloso duo…Quando dei por mim já estava esparramada no meio da poeira, movendo as ancas ao sabor da torrente, inclinando os braços aos jeitos do meu corpo frenético, no ambiente insano que se começava a desenrolar por todo o meu circulo. Os rapazes fechavam os olhos e fluíam o corpo ao ritmo da música enquanto puxavam o fumo de mais uma ganza pequenina. As raparigas espixavam os rabos para fora e moviam os quadris a um ritmo alucinante. Toda a gente parecia invadida de uma força transcendente e o recinto ganhou contornos de paraíso urbano!

E este foi o ponto alto da noite! De resto a organização ficou muito a desejar…Fosse pela localização do palco, fosse pela falta de ecrans gigantes, fosse pela decadência do espaço, fosse inclusive pela falta de pinheiros á vista…Só sei que as opiniões foram unânimes e injurias á parte (que eu não estou aqui para ofender ninguém) Puta que pariu…

Mas a companhia arrebatou-me o sorriso, as conversas loucas ocuparam-me os momentos mortos sem som e a fama que adquiri entre os presentes na festarola superou todas a minhas baixinhas expectativas…O meu título nobiliárquico de “Senhora” está assegurado!

sexta-feira, julho 08, 2005

Surpresa planeada

Empurrei a porta vidrada do pavilhão, deitei um vislumbre rápido sobre a recepção e segui o meu caminho, escada acima com a sacola pendurada no braço e a “Lolita” aconchegada na mão direita. Não o vi, ou melhor, vi a mancha da sua camisola rubra algures entre a rapariga sorridente numero um e a rapariga igualmente sorridente numero dois, mas por medo ou talvez vergonha, resolvi passar indiferente ao seu largo. “Melhor assim pensei!”.
Sentei-me numa das cadeiras do fundo da sala, encarei as carinhas curiosas do staff da piscina, puxei os meus óculos DG e peguei na minha “Lolita” bonita, afim de começar uma leitura penosa de duração interminável. Ao virar a segunda pagina, senti um alguém sentar-se a meu lado…Percebi que tinha sido descoberta e balbuciei um tímido “olá” enquanto arrumei o livro na carteira.
Ali estava ele do meu lado, aconchegado sobre a cadeira quente e desconfortável, perguntando porque não o tinha cumprimentado. Eu olhei para a piscina lá em baixo, fixei o corpo da Amanda que se movia no azulão da água e balbuciei uma mentira:
- A Amanda convidou-me para passar pelas piscinas hoje. Eu aceitei. Não sabia que ela andava nestas piscinas…e até fiquei muito surpreendida quando ela me trouxe para aqui…sabes que sim, sabes que eu pensava que ela andava nas outras! Depois quando passei na recepção não te vi, só vi três miúdas sorridentes! Não tenho culpa…não te vi mesmo!”
Ele aceitou a desculpa, claramente falsa, e escondeu-se atrás de uma conversa circunstancial de meia hora…enquanto enumerava os seus planos para ferias, os motivos para não me acompanhar ao evento do fim-de-semana ou a razão pela qual podia dar-se ao luxo de permanecer tanto tempo queimando horas do seu trabalho, falando comigo. Eu aceitei tudo o que me disse sem nunca questionar a veracidade daquilo que me transmitia…para quê?
Depois, ás duas horas em ponto, farto dos acenos dos colegas de trabalho que nos importunavam lá debaixo, levantou-se num pulo e disse que tinha de ir…Beijou-me o rosto uma vez e…surpreendentemente acabou por me aflorar os lábios numa pequena e fugaz carícia…

Amanha: Fête dans le Tejo